sexta-feira, 29 de março de 2013

Metta - A Filosofia e Prática do Amor Universal



Metta

A Filosofia e Prática do Amor Universal

Por

Acharya Buddharakkhita

Tradução

Davi Coêlho

Introdução

A palavra Pali metta é um termo de muitos significados como bondade-amorosa, afabilidade, boa-vontade, benevolência, amizade, irmandade, concórdia, não ofensividade e não violência. Os comentadores em Pali definem metta como um forte desejo pelo bem-estar e felicidade dos outros (parahita-parasukha-kamana). Essencialmente, metta é uma atitude altruísta de amor e afabilidade distinto da mera amabilidade baseada no interesse próprio. Através de metta, um indivíduo recusa-se a ser ofensivo e renuncia a amargura, ressentimento e inimizade de todo tipo, desenvolvendo ao invés disso uma mente amigável, benevolente e amável que procura assim o bem-estar e felicidade dos outros. O verdadeiro sentimento de metta é destituído de interesse próprio. Ao invés disso, evoca uma sensação interna que aquece o coração com sentimentos de irmandade, simpatia e amor, que cresce ilimitadamente com a prática e supera todas as barreiras sociais, econômicas, religiosas, raciais e políticas. Metta é realmente um amor universal, desinteressado e amplamente abrangente. 

Metta faz de um indivíduo uma fonte de bem-estar e segurança para outros seres. Assim como uma mãe dá sua própria vida para proteger sua criança, da mesma forma metta apenas dá e nunca deseja nada em retorno. Quando este impulso é transformado em desejo de promover o interesse e felicidade de outros, não apenas o impulso básico de satisfazer os interesses próprios é superado, mas a mente se torna universal por identificar seu próprio interesse com aquele de todos. Por fazer esta mudança, o bem-estar próprio também é promovido na melhor maneira possível.

Metta é a atitude protetora e imensamente paciente de uma mãe que suporta todas as dificuldades para o bem de seu filho e sempre o protege apesar de seu mau comportamento. Metta é também a atitude de um amigo que quer dar o melhor ao outro para promover o bem-estar deste e seu próprio. Se estas qualidades de metta forem suficientemente cultivadas através de metta-bhavana – a meditação sobre o amor universal – o resultado é a aquisição de um poder tremendo que preserva, protege e cura tanto do próprio indivíduo como os outros.

Aparte de suas implicações mais nobres, metta é uma necessidade pragmática nos dias de hoje. Em um mundo ameaçado por todo tipo de destrutividade, metta em ação, palavra e pensamento é o único meio construtivo para trazer concórdia, paz e compreensão mútua. De fato, metta é o meio supremo, pois forma o princípio fundamental de todas as nobres religiões assim como a base para todas as atividades benevolentes dirigidas para o bem-estar humano.

O presente artigo pretende explorar várias facetas de metta ambos em teoria e em prática. O exame do lado doutrinário e ético de metta procederá através do estudo do popular Karaniya Metta Sutta, “O Hino ao Amor Universal” do Buda. Em conexão com este tema também veremos outros textos menores lidando com metta. A explicação de metta-bhavana, a meditação sobre o amor universal, dará instruções práticas para desenvolver este tipo de contemplação conforme explicado em textos de meditação da tradição budista Theravada, como o Visuddhimagga, o Vimuttimagga e o Patisambhidamagga.


O Karaniya Metta Sutta: Hino ao Amor Universal

Karaṇīyamatthakusalena yaṃ taṃ santaṃ padaṃ abhisamecca, 
Sakko ujū ca sūjū ca suvacocassa mudu anatimānī.

Quem é hábil em fazer o que é benéfico, desejando alcançar
o Estado de Paz, age assim:
capaz, correto, honrado,
com a linguagem nobre, gentil e sem arrogância,

Santussako ca subharo ca appakicco ca sallahukavuttī, 
Santindriyo ca nipako ca appagabbho kulesu ananugiddho.

Satisfeito e fácil de sustentar,
sem ser exigente por natureza, frugal no seu modo de vida,
seus sentidos acalmados, sábio,
moderado, sem cobiçar ganhos.

 
Na ca khuddaṃ samācare kiñci yena viññū pare upavadeyyuṃ
Sukhino vā khemino hontu sabbe sattā bhavantu sukhitattā 

Que este não faça nada, mesmo que trivial,
que seja condenado pelos sábios. 
(então, que este cultive o pensamento): felizes, seguros,
que todos os seres tenham os corações pleno de bem-aventurança!

Ye keci pāṇa bhūtatthi tasā vā thāvarā vā anavasesā
Dīghā vā ye mahantā vā majjhamā rassakāṇukathūlā 

Que todos os seres vivos que existem,
fracos ou fortes, sem exceção,
compridos, grandes,
médios, curtos,
sutis, grosseiros,

Diṭṭhā vā yeva addiṭṭhā ye ca dūre vasanti avidūre
Bhūtā vā sambhavesī vā sabbe sattā bhavantu sukhitattā 

Visíveis ou invisíveis,
próximos e distantes,
nascidos e por nascer:
que todos os seres possam ser felizes!

Na paro paraṃ nikubbetha nātimaññetha katthaci naṃ kañci
Byārosanā paṭighasaññā nāññamaññassa dukkhamiccheyya

Que ninguém engane 
ou despreze outrem, em lugar nenhum,
ou devido à raiva ou má vontade
deseje que alguém sofra.

Mātā yathā niyaṃ puttaṃ āyusā ekaputtamanurakkhe
Evampi sabbabhūtesū mānasaṃ bhāvaye aparimānaṃ 

Tal qual uma mãe, colocando em risco a própria vida,
ama e protege a sua criança, o seu único filho,
da mesma forma, abarcando todos os seres, 
cultive um coração sem limites.

 
Mettaṃ ca sabbalokasmiṃ mānasaṃ bhāvaye aparimānaṃ
Uddhaṃ adho ca tiriyañca asambādhaṃ averaṃ asapattaṃ 

Com amor-bondade para todo o universo,
cultive um coração sem limites:
em toda sua altura, largura e profundidade,
amor desobstruído, livre da raiva e da má vontade.

Tiṭṭhaṃ caraṃ nisinno vā sayāno vā yāvatassa vigatamiddho
Etaṃ satiṃ adhiṭṭheyya brahmametaṃ vihāraṃ idhamāhu 

Quer seja parado em pé, andando,
sentado, ou deitado,
sempre que estiver desperto,
cultive com todo seu poder essa atenção plena:
pois isto se chama a Morada Divina
no aqui e agora.

Diṭṭhiñca anupagamma sīlavā dassanena sampanno
Kāmesu vineyya gedhaṃ nahi jātu gabbhaseyyaṃ punaretīti. 

E sem estar aprisionado por falsas crenças,
virtuoso e com a visão consumada,
tendo subjugado o desejo pelo prazer sensual,
em um ventre este não mais renascerá.


A História Por Trás do Karaniya Metta Sutta

O background histórico que levou o Buda a expor o Karaniya Metta Sutta é explicado no comentário escrito por Acariya Buddhaghosa, que o recebeu de uma linhagem ininterrupta de Anciões voltando até os dias do próprio Buda.

Foi dito que quinhentos monges receberam instruções do Buda em técnicas particulares de meditação apropriada para o temperamento individual de cada um. Eles foram então aos sopés do Himalaia, para passarem quatro meses do retiro do período de chuva vivendo uma vida recolhida e de intensa meditação. Nestes dias, um mês ou dois antes do retiro do período de chuva começar, monges de todas as partes do país se encontrariam onde o Buda estava residindo para poder receber instruções diretas do Mestre Supremo. Eles então voltariam para seus mosteiros, ou habitações na floresta ou eremitérios para fazerem vigorosas tentativas à libertação espiritual. Foi assim que estes quinhentos monges foram até o Buda, que estava em Savatthi no Bosque de Jeta no mosteiro construído por Anathapindika.

Após receberem instruções eles foram atrás de um lugar apropriado, e durante o curso de sua viagem, eles logo encontraram um belíssimo outeiro nos sopés do Himalaia. De acordo com o comentário este lugar “parecia com um reluzente cristal de quartzo azul: era embelezado com uma fresca, densa e verde floresta e um trecho coberto de areia, semelhante a uma rede de pérolas ou uma folha de prata, e era adornado por uma nascente de água fria”. Os bhikkhus ficaram cativados pela visão. Havia algumas vilas por perto, e também uma pequena cidade comercial, que era ideal como local para se pedir esmolas. Os monges passaram a noite naquele bosque idílico e na manhã seguinte foram até a cidade comercial para pedir esmolas.

Os residentes estavam radiantes ao verem os monges, pois raramente eles viam uma comunidade de monásticos virem passar o retiro do período da chuva naquelas partes do Himalaia. Estes piedosos devotos alimentaram os monges e pediram que estes permanecessem lá como convidados, prometendo construir para cada um deles uma cabana próximo ao bosque sobre o trecho arenoso para que pudessem passar seus dias e noites absortos em meditação sobre os antigos ramos daquelas árvores majestosas. Os bhikkhus concordaram e os devotos da área logo começaram a construção das cabanas na margem da floresta e proveram cada cabana com uma cama estreita, um banco e potes de água para banho e consumo.

Após os monges terem se acomodado contentemente nestas cabanas, cada um selecionou uma árvore para meditar debaixo desta, por dia e noite. Agora, era dito que estas grandes árvores eram habitadas por certas divindades que tinham uma mansão celestial construída na copa das árvores. Estas deidades, por reverência aos monges contemplativos, saíram de suas casas com suas famílias. Virtude era reverenciada por todos, particularmente pelas divindades, e quando monges sentavam sobre as árvores, as divindades, que eram chefes de família, não gostavam de permanecer em suas residências. As deidades pensaram que os monges permaneceriam apenas por uma noite ou duas, e, portanto, passaram pela inconveniência com boa vontade. Mas quando dia após dia havia passado e os monges ainda se mantinham ocupando a base das árvores, as deidades começaram a pensar quando eles iriam embora. Eles se sentiram como moradores de vilas cujas casas foram ocupadas por oficiais da nobreza e permaneceram observando os monges ansiosamente à distância, imaginando quando eles teriam suas casas de volta.  

Estas destituídas divindades discutiam sobre a situação entre si, e decidiram assustar os monges fazendo os mais diversos tipos de objetos aterrorizantes aparecerem, fazendo barulhos horrendos e criando um odor insuportável. Consequentemente, eles materializaram todas estas condições horrorosas e afligiram os monges. Os monges gradualmente ficaram pálidos e não conseguiam mais se concentrar em seus temas e objetos de meditação. Conforme estas deidades continuaram a perturbá-los, eles perderam até mesmo a mais básica atenção plena, e suas mentes pareciam estar sufocadas pelas visões oprimentes, barulho e fedor. Quando os monges se agregaram para esperar o monge mais ancião do grupo, cada um contou sua experiência. O ancião sugeriu: “Vamos voltar, irmãos, para o Abençoado e colocar diante dele nossa queixa. Há dois tipos de retiros da chuva – o cedo e o tardio. Embora estaremos interrompendo o retiro cedo ao deixar este local, podemos sempre concluir o tardio após reunirmos com o Mestre.” Os monges concordaram e saíram de lá imediatamente, e de acordo com o comentário, até mesmo sem informar os devotos.   

Aos poucos eles chegaram a Savatthi, e foram até o Abençoado, prostraram-se aos seus pés e relataram suas experiências aterrorizantes, pateticamente pedindo por outro lugar. O Buda, através de seus poderes supranormais, sondou a Índia inteira, mas não encontrando lugar melhor a não ser aquele mesmo ponto onde eles poderiam conseguir a libertação espiritual, disse: “Monges, voltem para o mesmo local! É apenas com o esforço que vocês conseguirão efetuar a destruição das máculas internas. Não temam! Se querem estar livres de perturbações causadas por deidades, aprendam este sutta. Será um tema para meditação assim como uma fórmula para proteção (paritta).

Então o Mestre recitou o Karaniya Metta Sutta – o Hino do Amor Universal – do qual os monges aprenderam por memória na presença do Mestre. Então eles voltaram para o mesmo local.

Conforme os monges aproximavam-se da floresta recitando o Metta Sutta, pensando e meditando sobre o seu significado, os corações das deidades ficaram tão saturados de sentimentos de boa vontade e compaixão que elas mesmas se materializaram em forma humana e receberam os monges com grande devoção. Elas pegaram a tigela destes, os conduziram para seus quartos, e materializaram comida e água para serem fornecidos, e então, voltando à sua forma divina, pediram para que eles ocupassem a base das árvores e meditassem sem hesitação ou medo.

Ademais, durante os três meses do retiro, as divindades não apenas tomaram conta dos monges em todo o sentido como também asseguraram que o local estivesse livre de qualquer barulho. Desfrutando do silêncio perfeito, ao final do período de chuva, todos os monges tinham atingido o pináculo da perfeição espiritual. Cada um dos quinhentos monges haviam tornado-se arahants.

De fato, tal é o poder intrínseco no Metta Sutta. Quem quer que seja que recite com fé firme, invocando a proteção das devas e meditando em metta, não apenas protegerá a si mesmo em todos os sentidos, mas também protegerá todos aqueles ao seu redor, e fará grande progresso espiritual que poderá ser verificado. Nenhum mal pode cair sobre a pessoa que trilha o caminho de metta.


Três Aspectos de Metta

O Metta Sutta consiste em três partes, cada uma da qual foca em um aspecto distinto de metta. A primeira parte (linhas 3 a 10) cobre os aspectos que requerem uma aplicação minuciosa e sistemática da bondade-amorosa na conduta diária. A segunda parte (linhas 11 a 20) descreve a bondade-amorosa como uma técnica distinta de meditação ou cultivo da mente conduzindo à samadhi – estado de consciência superior induzido pela absorção. E a terceira parte (linhas 21 a 40) fala sobre o compromisso total com a filosofia do amor universal e suas extensões pessoais, sociais e empíricas – bondade-amorosa através de atividades corporais, verbais e mentais. 

Metta é identificado como aquele fator específico que ‘amadurece’ o mérito acumulado (puñña) adquirido através dos dez meios para a aquisição de mérito (dasapunna-kiriyavatthu), tal como a prática da generosidade, virtude, etc. Similarmente, é metta que trás à maturidade as dez qualidades espirituais exaltadas, conhecidas como “perfeições” (paramita).

A prática de metta pode assim ser comparada a trazer à existência uma grande árvore desde o tempo em que a semente é plantada até a hora em que a árvore está carregada com frutas suculentas e exala sua doce fragrância para todos os cantos, atraindo miríades de criaturas para desfrutar de sua saborosa abundância. O brotar da semente e o crescimento desta, são, como se fosse, causados pela primeira parte deste sutta. Na segunda parte a árvore, já robusta e desenvolvida, é inteiramente cobeta com flores belas e fragrantes, chamando a atenção de todos os olhares.

Como o padrão de comportamento, o primeiro aspecto de metta faz a vida de alguém crescer como uma árvore, generosa e nobre. Metta, como objeto de meditação, efetua aquela eflorescência espiritual por onde a vida de um se torna a fonte de alegria para todos. A terceira parte prevê nesta imagem a fruição deste processo de desenvolvimento espiritual por onde o ser faz fruir uma aplicação abrangente do amor espiritual que pode condicionar poderosamente a sociedade como um todo e até mesmo conduzir à realização mais transcendental de todas, Nibbana.

A mente humana é como uma mina contendo uma reserva inexaurível de poder espiritual e insight. Este imenso potencial de mérito pode ser inteiramente explorado apenas pela prática de metta, conforme está claro na descrição de metta como sendo aquela “força que amadurece” e resulta em méritos dormentes. No Mangala Sutta é dito que apenas depois que um ser efetuou um relacionamento elevador interpessoal (ao escolher boas companhias, etc.) é que este ser poderá escolher o ambiente apropriado para os méritos do passado encontrarem oportunidade de se manifestarem. Este encontrar da fruição do mérito é exatamente o que metta faz. Apenas evitar más companhias e viver em um ambiente culto não é o suficiente; a mente precisa ser cultivada através de metta. Portanto a alusão à fruição de mérito passado.


A Ética de Metta

Ética, em um contexto Budista, é conduta correta, que trás felicidade e paz de mente, e nunca dá origem ao remorso, preocupação ou ansiedade mental. Este é o benefício psicológico imediato. Conduta correta também conduz a um renascimento feliz, capacitando o aspirante a progredir ainda mais no caminho para a libertação espiritual. É também a base para o progresso no Dhamma no aqui e no agora. Em outras palavras, linguagem correta, ação correta, e meio de vida correto do Nobre Caminho Óctuplo mostrado pelo Buda constituem a conduta correta no melhor dos sentidos. 

A ética budista é dupla: o cumprimento de certos valores (caritta), e os preceitos da abstinência (varitta). Caritta, conforme descrito no Metta Sutta, é como se segue:

[Ele] Deve ser capaz, honesto e justo,
Gentil em sua linguagem, humilde e não orgulhoso.
Satisfeito, ele deve ser fácil de sustentar,
Não sobrecarregado com tarefas, simples no seu viver.
Seus sentidos tranquilos, que ele seja prudente,
Moderado, sem cobiçar ganhos.

Varitta é descrita na seguinte gatha:

E que este nunca faça nada
Que homens sábios possam reprovar.

Caritta e varitta são assim praticadas através de metta expresso em ações corporais e verbais; a felicidade interna resultante e o instar altruísta são refletido pela ação mental de metta do aspirante, conforme visto na conclusão da estrofe:

(então, que este cultive o pensamento): felizes, seguros,
que todos os seres tenham os corações plenos de bem-aventurança!

A ética de metta provê assim não apenas um bem-estar subjetivo, ou a oportunidade de progredir no Dhamma no aqui e no agora e de desfrutarmos de um renascimento feliz no futuro, mas também significa o ato de doar destemor e segurança – abhayadana e khemadana.

Uma analise do padrão de comportamento e traços exaltados pelo Metta Sutta para relações significantes, ambos com referência às pessoas individualmente e com a sociedade como todo, provê uma ampla visão nas grandes implicações deste sutta para a saúde mental.

Ser capaz não é apenas mera eficiência ou habilidade, mas significa fazer algo bem, por consideração aos outros, para que não causemos inconveniência a estes. Como um homem capaz pode ser muito presunçoso, o praticante é advertido a ser ‘honesto e justo’, enquanto sendo ao mesmo tempo ‘gentil em sua linguagem, humilde e não orgulhoso’ – de fato uma síntese perfeita e um equilíbrio de traços.

Aquele que está intimamente satisfeito é por consequência, ‘fácil de sustentar’. Frugalidade, vinda da consideração pelos outros, é um traço nobre. A extensão em que a necessidade de alguém é racionada como um exemplo para outros e como um meio de não incomodá-los, a esta extensão um indivíduo demonstra refinamento. Quanto mais grosseira e materialista uma pessoa se torna, mais suas necessidades aumentam. A régua métrica para medir a saúde mental de uma dada sociedade é assim, a diminuição das necessidades; isto quer dizer, o elemento da satisfação interna.

Uma vida materialista e egocêntrica é caracterizada não apenas por um aumento em necessidades, mas também por ansiedade, mostrando seu rosto ao ser sobrecarregada e hiperativa e carecendo em moderação e auto restrição. Metta, que promove o bem estar de todos, deve ser naturalmente construída sobre as qualidades do sóbrio humanismo tais como refletidas em apenas algumas atividades seletas e importantes que conduzem ao bem estar de todos envolvidos.

Viver uma vida simples como expressão de metta envolve uma reorientação de nosso modo de ver as coisas e de nossa conduta, até mesmo em nosso competitivo e possessivo mundo, sequioso pelo busca do prazer. Um homem de vida simples é gentil, porém eficiente e eficaz, e tem restrição sobre suas faculdades sensoriais, sendo moderado, frugal e controlado. Cultivo mental através da meditação para tal pessoa torna-se natural e fácil: portanto o atributo “tranquilo em seus sentidos”.

Metta na conduta inclui o exercício da prudência, quer dizer, sabedoria prática. É apenas uma pessoa sábia e sagaz que consegue praticar metta em todas suas formas variadas na vida diária, e através de todos os modos de relacionamento humano. A presunção, surgida de um senso de ser melhor do que os outros ou mais devoto pode ser (assim como muitas vezes é) uma máscara da pratica espiritual. Portanto “moderado, sem cobiçar ganhos” é assim um indicador para a pessoa que pratica metta a não ser indulgente em qualquer forma de presunção.

Ainda mais, o praticante de metta é advertido a se restringir de qualquer ação, mesmo de convenções sociais, da qual homens sábios o possam reprovar como carente em prudência ou justeza. Não é bom o suficiente que sejamos bom, mas devemos ser vistos como bom, em consideração não apenas a nosso bem estar, mas também aquele dos outros. Uma vida exemplar é para ser vivida para o benefício de todos, para o bem estar da sociedade.

Uma pessoa vivendo assim mergulha diretamente no cultivo de uma mente abrangente de metta para com todos através das técnicas definidas de meditação conforme previstas no restante deste sutta.

Metta é também chamada de paritta – uma formula espiritual capaz de proteger nosso bem estar e integridade, guardando-nos de todo os perigos, e nos salvando de infortúnios e desgraças.

Quando os monges não conseguiram permanecer e meditar naquela bela floresta fornecida com todas as necessidades porque as divindades eram hostis a eles, eles tiveram que deixar o local. E quando retornaram armados com a proteção do Metta Sutta, do qual eles recitaram e meditaram sobre seu significado durante seu retorno, no momento em que chegaram ao local, as divindades estavam cheias de sentimentos afáveis e já antecipando o retorno destes. Hostilidade foi transformada em hospitalidade.

A proteção de paritta funciona tanto subjetivamente como objetivamente. Subjetivamente, conforme metta limpa e fortifica a mente, também desperta os potenciais dormentes, resultando numa transmutação espiritual da personalidade. Transformado por metta, a mente não é mais assombrada por ganância, ódio, lascívia ou inveja, e aqueles outros fatores que são poluentes mentais que são nossos verdadeiros inimigos e fonte de infortúnio. 

Objetivamente, metta como um pensamento-fortaleza é capaz de afetar qualquer mente em qualquer lugar, seja esta desenvolvida ou não desenvolvida. A radiação de metta pode não apenas acalmar uma pessoa ou remover flechas de ódio de seu coração, mas em alguns casos pode até mesmo curar de doenças severas. É uma experiência comum em países Budistas ver pessoas sendo curadas de todo tipo de doenças e libertas de infortúnios através da recitação dessa paritta. Assim, metta é realmente uma fonte de poder curador. Deste modo, metta age como paritta, uma formula de cura oferecendo proteção.


A Psicologia de Metta

Os comentários em Pali nos explicam que:

Um indivíduo ama todos os seres:

     (a)    Por não perturba-los e assim, evita a perturbação;
     (b)   Por ser não ofensivo (para com todos os seres), e assim evita ser ofendido;
     (c)    Por não torturar nenhum ser, e assim evita ser torturado;
     (d)   Pela não destruição da vida, e assim evita a própria destruição;
     (e)    Por não ser um incômodo, e assim evita ser incomodado;
     (f)    Por radiar o pensamento, “Que todos os seres possam ser amigáveis e não hostis”;
   (g)   Por radiar o pensamento, “Que todos os seres possam ser felizes e estarem longe da infelicidade”;
     (h)   Por radiar o pensamento, “Que todos os seres possam desfrutar de bem-estar e não estarem aflitos”.

Destes oitos modos, um indivíduo ama todos os seres; e, portanto isso é chamado de amor universal. E já que esta qualidade de amor é concebida internamente, ela é uma qualidade mental. E como esta mente está livre de todos os pensamentos de raiva, o agregado do amor, mente e liberdade são definidos como amor universal conduzindo à libertação da mente.

Da passagem acima será percebido que metta implica a superação de traços negativos por pôr ativamente em prática as positivas virtudes correlativas. É apenas quando praticamos ativamente a não perturbação para com todos os seres que podemos superar a tendência de perturbarmos. Similarmente, o mesmo se dá com as qualidades de não ofensividade, o não atormentar, a não destruição e o não incomodar em ação, palavra ou pensamento que alguém pode superar os traços de não ofender, não atormentar, não destruir e não ser um incômodo. E além de tal conduta positiva e princípios de vida, cultivamos ainda mais a mente através da técnica específica de meditação chamada metta-bhavana, que gera poderosos pensamentos de amor espiritualizado que cresce de forma ilimitada, tornando a consciência em si infinita e universal.
 
Pensamentos que desejam que todos os seres sejam amigáveis e não hostis, felizes e nunca infelizes, que possa desfrutar de bem estar e nunca de aflição, implicam não apenas sublimidade e infinitude, mas também completa libertação mental. Portanto a pertinente expressão “amor universal conduzindo à liberdade da mente”. 

Quanto aos significados dos cinco aspectos opostos de metta, perturbação é o desejo de oprimir ou danificar; ofensividade é a tendência de machucar ou ferir (geralmente com palavras); torturar é sinônimo da tendência sádica de atormentar, subjulgando outros à dor e miséria; destrutividade é colocar um fim ou acabar, o traço do extremista e iconoclasta; incomodar é taxar, causar problemas ou preocupações a outros. Cada uma dessas tendências está enraizada em antipatia e malevolência, e proporciona um contraste com metta, tanto como modo de conduta e como um estado psicológico ou atitude mental.  

A substituição de um traço negativo pelo curso oposto positivo implica uma forma bem madura e desenvolvida de abordar a vida. A habilidade de não ser um incomodo, perturbação, fonte de ofensividade, tortura e destruição significa um modo de comportamento muito belo e refinado em um mundo onde a interação entre seres humanos cria tanta tensão e miséria.  

De acordo como o Visuddhimagga, metta é um “solvente” que “derrete” não apenas os nossos próprios poluentes psíquicos de raiva, resentimento e ofensividade, mas também aqueles dos outros. Já que metta toma a abordagem da amizade, até aqueles hostis podem se tornar amigos.

Metta é caracterizado como aquilo que “promove o bem estar”. Sua função é “preferir o bem” ao invés do mal. Metta se manifesta como uma força que “remove o aborrecimento” e sua causa próxima é a tendência de ver o lado bom das coisas e dos demais seres e nunca as culpas ou faltas. Metta é bem sucedido quando ama, e falha quando degenera em afeição mundana.

Estará claro a partir desta análise que apenas quando criarmos a tendência de ver o bem nas pessoas, e preferir o bem destes, e de acordo, formos inofensivos (para removermos qualquer perturbação ou ferida) e ativamente promover o bem estar, é que metta funciona como um solvente. É dito que o propósito final de metta é atingir o insight transcendente, e se isso não for possível, pelo menos resultará em um renascimento na esfera sublime do mundo de Brahma, à parte de trazer paz interior e um estado saudável mental no aqui e no agora. Portanto a garantia do Buda no Metta Sutta:

E sem estar aprisionado por falsas crenças,
virtuoso e com a visão consumada,
tendo subjugado o desejo pelo prazer sensual,
em um ventre este não mais renascerá.

O amor afasta o ódio, que é a mais danificadora de todas as emoções. Por isso é dito: “Esta é a escapatória da raiva, amigos, quer dizer, a libertação da mente através do amor universal” (Digha Nikaya, III. 234). 

Durante a prática de metta é importante compreender as emoções que nulificam metta por serem similares ou serem não similares. O Visuddhimagga os chama de “os dois inimigos – o próximo e o remoto”. Ganância, lascívia, afeição mundana, sensualidade – todos estes são ditos como sendo “inimigos próximos” porque eles têm aparentes tendências similares. O lascivo também vê “o lado bom” ou a “beleza”, e por isso ele se envolve. O amor deve ser protegido disso caso não queiramos que ele seja mascarado por sentimentos que enganem o meditador.

Má vontade, raiva e ódio, por serem sentimentos não similares, portanto constituem o “inimigo remoto”. O inimigo remoto pode ser facilmente distinguido, portanto não devemos temê-lo, mas devemos superá-lo por projetarmos uma força maior, a força do amor. Contudo, devemos estar sempre atentos ao inimigo mais próximo porque este pode criar uma autoilusão, o que é a pior coisa que pode acontecer com um indivíduo.

(Nota do tradutor: fica aqui uma dica para ficar atento sobre como diferenciar entre o afeto mundano e o amor universal. Houve certas vezes em que caí nessa ilusão durante a minha prática de meditação, em que achei que um sentimento que estava surgindo no meu coração era o do amor universal. Porém, ao analisá-lo mais atentamente, vi que este sentimento só conseguia ser irradiado para uma pessoa com quem estava na época tendo uma relação afetiva íntima, e quando eu visualizava outra pessoa, não conseguia estender este mesmo sentimento. Outra vez, quando o sentimento de amor universal surgiu, vi que conseguia visualizar qualquer pessoa em minha mente e estender o mesmo sentimento de forma igual – isto sim é metta).

É dito que metta começa apenas quando há o zelo na forma de um desejo de querer atuar. Tendo começado com um esforço honesto, só pode ser continuado quando os cinco empecilhos mentais – desejo sensual, raiva, preguiça e torpor, ansiedade e preocupação, e dúvida – forem colocados de lado. Metta atinge culminação quando alcança a absorção meditativa (jhana).


Meditação sobre Metta

Há vários meios de se praticar metta-bhavana, a meditação sobre o amor universal. Três dos principais métodos serão explicados aqui. Estas instruções, baseadas em fontes canônicas e comentários, destinam-se a explicar a prática de meditação metta em um modo simples, claro e direto para que qualquer um que seja sincero em seu querer possa adotar a prática possa estar livre de dúvidas sobre como proceder. Para instruções completas sobre a teoria e prática de metta-bhavana, o leitor deve-se direcionar ao Visuddhimagga, Capítulo IX.

Método 1

Sente-se em uma postura confortável em um lugar silencioso – um quarto de altar, um quarto quieto, um parque ou qualquer local que forneça privacidade e silêncio. Mantendo os olhos fechados, repita a palavra “metta” algumas vezes e invoque mentalmente o seu significado – amor como o oposto de ódio, resentimento, malevolência, impaciência, orgulho e arrogância, e como um profundo sentimento de boa vontade, simpatia e gentileza promovendo a felicidade e bem estar de outros. 

Agora visualize seu próprio rosto em um estado feliz e radiante. Cada vez que ver seu rosto no espelho, veja a você mesmo em um estado de humor feliz e coloque-se neste estado durante a meditação. Uma pessoa de bom humor não pode ficar com raiva ou cultivar pensamentos ou sentimentos negativos. Tendo visualizado você mesmo em um estado de mente contente, agora se carregue com o pensamento, “Que eu possa estar livre da hostilidade, livre da aflição, livre do estresse; que eu possa viver alegremente.” Conforme for se enchendo deste modo com este pensamento positivo de amor, você se torna um recipiente cheio, com seu conteúdo pronto para transbordar em todas as direções.

Próximo passo, visualize seu instrutor de meditação; se não tiver um, escolha algum mestre que esteja vivo ou uma pessoa por quem você tenha muito respeito. Veja esta pessoa em um estado de felicidade e projete o pensamento: “Que meu mestre esteja livre de hostilidade, livre da aflição, livre do estresse; que ele possa viver em felicidade!”.

Então imagine outras pessoas por a quem você reverencie, e que também estejam vivas – monges, instrutores, pais ou anciãos, e estenda intensamente em direção a eles o pensamento de metta na maneira anteriormente mencionada: “Que todos estes possa estar livre de hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade!”

A visualização deve ser clara e a radiação do pensamento deve ser bem definida e projetada. Se a visualização for apressada ou o desejo for feito de uma forma superficial ou mecânica, a prática será de pouco benefício, pois então a prática se tornará apenas um passatempo intelectual sobre pensar sobre metta. Devemos compreender claramente que pensar sobre metta é uma coisa, e sentir metta, ativamente projetar a força da boa-vontade do amor, é outra coisa.

Perceba que apenas uma pessoa viva é quem deve ser visualizada, e não uma já falecida. A razão para isto é que a pessoa falecida, tendo mudado sua forma, ficará fora de foco da projetação de metta. O objeto de metta deve ser sempre um ser vivo, e a força do pensamento será ineficaz se o objeto não estiver vivo. 

Tendo irradiado pensamentos de metta na ordem acima mencionada – primeiramente para si mesmo, depois o instrutor de meditação, e depois outras pessoas reverenciadas – visualize um por um, todas as pessoas a quem considera querida, começando pelos membros familiares, enchendo-as cada uma com raios abundantes de amor bondade. Caridade começa em casa: se não podemos amar as pessoas com que convivemos diariamente, como poderíamos amar os outros?

Enquanto estendendo metta para seus membros familiares, atenção deve ser dada para que uma pessoa muito querida, como um marido ou uma esposa, seja o último nessa lista. O motivo para isso é que a intimidade entre um marido e uma esposa introduz o elemento da afeição mundana, que é o oposto de metta. Amor espiritual deve ser o mesmo para com todos. Similarmente, se alguém teve uma discussão ou briga com algum membro familiar ou parente, ele ou ela deve ser visualizado ao final da lista para evitar a lembrança de incidentes desagradáveis. 

Depois disso, pessoas neutras devem ser visualizadas, pessoas a quem nem sentimos afeto e nem desafeto, tal como nossos vizinhos, colegas de trabalho, meros conhecidos, e assim por diante. Tendo projetado pensamentos amorosos para todos em seu círculo neutro, deve-se visualizar em seguida pessoas com quem possivelmente tenha tido um temporário mal-entendido. Conforme visualizamos pessoas de quem não gostamos, para cada um destes devemos repetir: “Nenhuma hostilidade eu tenho em relação a ele/ela, que ele/ela possa também não reter nenhuma hostilidade contra mim. Que ele/ela possa ser feliz!”

Assim, conforme visualizamos as pessoas de círculos diferentes, “quebramos as barreiras” causadas por preferências, por apego e por ódio. Quando somos capazes de considerar um inimigo sem ódio e com a mesma quantia de boa-vontade com que temos para um bom amigo, metta adquire uma imparcialidade sublime, elevando a mente para cima e para fora, como num movimento espiral sempre crescente, até que se torne completamente abrangente. 

Por visualização é entendido “chamar à mente” ou mentalizar certos objetos, tais como uma pessoa, uma área ou uma categoria de seres. Em outras palavras, significa imaginar as pessoas para quais os pensamentos de amor são direcionados ou estendidos. Por exemplo, pode imaginar seu pai ou visualizar seu rosto em um estado de felicidade ou projetar o pensamento para a imagem visualizada, dizendo mentalmente: “Que ele possa ser feliz! Que ele possa estar livre de doenças ou problemas! Que ele possa desfrutar de boa saúde!”. Você pode usar qualquer pensamento que promova o bem estar deste.

Por radiação é entendido, como explicado acima, a projeção de certos pensamentos promovendo o bem estar das pessoas para o qual sua mente está se direcionando. Um pensamento de metta é uma poderosa força mental. Tem o poder de realmente efetuar o que foi desejado. Pois estender o bem estar é desejar e portanto é uma força criativa. De fato, tudo o que o homem criou em áreas diferentes é o resultado do que ele desejou, seja uma cidade ou um projeto hidroelétrico, um foguete indo para a lua, uma arma de destruição em massa, ou uma obra prima literária ou artística. A radiação de pensamentos de amor, também, é desenvolvimento do poder da vontade que pode efetuar o que foi desejado. Não é uma rara experiência ver doenças curadas ou infortúnios evitados, até mesmo de uma grande distância, pela aplicação da força mental de metta. Mas esta força mental tem que ser gerada em um modo muito específico e habilidoso, seguido de certas sequências.

A formula para radiar metta usada aqui chegou até nós através do antigo Patisambhidamagga: “Que eles possam estar livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade” (avera hontu, abyapajjha hontu, anigha hontu, sukhi attanam pariharantu). A explicação dada nos comentários para estes termos são bem relevantes. “Livres da hostilidade” (avera) significa a falta de hostilidade seja estimulada em si mesmo ou nos outros, ou por conta de si mesmo por causa de outros ou outros por causa de você mesmo ou outros. A raiva que sentimos com nós mesmos pode tomar a forma de autopiedade, remorso ou uma agonizante sensação de culpa. Pode ser condicionada também pela interação com os outros. Hostilidade combina raiva com inimizade. “Livres da aflição” (abyapajjha) significa a ausência de sofrimento mental, angústia ou ansiedade, o que geralmente é seguido por hostilidade ou aflição corporal. É apenas quando estamos livres de hostilidade, aflição e estresse que podemos “viver em felicidade”, isto é, conduzirmo-nos com tranquilidade e alegria. Portanto todos estes termos estão interconectados. 

Por ordem é entendido a visualização de objetos, um após o outro, ao adotar o caminho da menor resistência, em uma sequência gradual, que progressivamente amplia o círculo de pessoas e assim, a mente em si. O Visuddhimagga é bem claro a respeito desta ordem. De acordo com Acariya Buddhaghosa, devemos começar a meditação sobre metta por visualizar primeiramente pessoas queridas, após isso pessoas neutras, e então pessoas hostis. Conforme radiamos pensamentos de amor nesta ordem, a mente quebra as barreiras entre nós mesmo, uma pessoa reverenciada, uma pessoa neutra e uma hostil. Todos se tornam iguais sobre o olhar do amor universal.

No Visuddhimagga Acariya Buddhaghosa faz uma apta analogia para a quebra desta barreira: “Suponha que bandidos viessem até um meditador que está sentado em um local com uma pessoa reverenciada, uma amada, uma neutra e uma pessoa hostil ou má, e ordenasse, ‘Amigos, queremos um de vocês para o propósito de ser oferecido como sacrifício humano’. Se o meditador pensar, ‘Que ele leve aquele ou aquela pessoa’, este ainda não quebrou as barreiras. E se ele até mesmo pensar, ‘Que nenhuma dessas pessoas seja levada, mas que ele possa me levar no lugar destas’, ainda sim, ele ainda não quebrou as barreiras já que ele procura o seu próprio dano, e metta significa o bem estar de todos. Mas quando ele não vê a necessidade de nenhuma destas serem dadas aos bandidos e imparcialmente projeta o pensamento de amor universal para todos, até mesmo os bandidos, então pode ser dito que ele quebrou todas as barreiras”.


Método 2

O primeiro método de praticar a meditação sobre metta aplica a projeção de pensamentos amorosos a indivíduos em específico numa ordem de crescente afastamento de si mesmo. O segundo método apresenta um modo impessoal de radiar metta que torna a mente verdadeiramente abrangente, conforme sugerida pelo termo em Pali metta-cetovimutti, “a libertação da mente através do amor universal”. A mente não libertada está aprisionada entre as paredes do egocentrismo, ganância, ódio, ilusão, inveja e mesquinharia. Enquanto a mente estiver sobre o poder destes fatores mentais limitantes e poluentes, ela permanece insular e aprisionada. Ao quebrar estas barreiras, metta liberta a mente, e a mente libertada naturalmente se expande infinitamente, de forma imensurável.

Após a conclusão da projeção de metta em direção a pessoas selecionadas, quando a mente quebra as barreiras existindo entre si mesmo e pessoas reverenciadas, amadas, amigos, pessoas neutras e hostis, o meditador agora embarca na grande viagem da projeção impessoal, assim como um navio viaja pelo vasto e imensurável oceano, não obstante retendo a rota e objetivo final. A técnica é a seguinte:

Imagine as pessoas residindo em sua casa como formando um único agregado, então abrace-os todos em seu coração, radiando pensamentos de amor: “Que todos aqueles habitando esta residência possam estar livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que estes possam viver em felicidade”. Tendo visualizado sua própria casa nesta maneira, visualizamos em seguida a próxima casa, e todos os seus residentes, e então a próxima casa, e a próxima, e assim por diante até que todas as casas em sua rua tenham sido similarmente abraçadas por pensamentos de amor universal. Agora o meditador deve visualizar a próxima rua, e a próxima, até que vizinhança inteira ou vila esteja coberta. Depois disso extensão por extensão, de forma bem direcionada, deve ser visualizado e estendido com raios de metta de forma abundante. Neste modo a cidade inteira é coberta; então o distrito e o estado inteiro coberto e radiado com pensamentos de metta.

Após isso, deve-se visualizar estado depois de estado, começando com seu próprio estado, e depois os restantes em direções diferentes, o leste, oeste, sul e norte. Assim, deve-se cobrir seu próprio país, geograficamente visualizando as pessoas desta terra indiferente de classe, raça, setor ou religião. Pense: “Que todos neste grande terra possam habitá-la em paz e bem estar! Que possa não haver guerras, brigas, infortúnios ou doenças! Radiante com simpatia e boa vontade, com compaixão e sabedoria, que todos neste grande país possam desfrutar de paz e abundância”.

Deve-se encobrir agora o continente inteiro, país por país, na direção leste, oeste, sul e norte. Geograficamente visualizando cada país e as pessoas ali habitando de acordo com suas aparências, devemos radiar em abundante quantidade pensamentos de metta: “Que eles possam estar felizes! Que possa não haver conflitos e discórdia! Que a boa-vontade e compreensão mútua possa prevalecer! Que a paz esteja com todos!”.

Após isso, deve-se visualizar todos os demais continentes – África, Ásia, Austrália, Europa, América do Sul e do Norte – visualizando país por país e povo por povo, cobrindo o globo inteiro. Imagine-se em um ponto em particular no globo e projeto o poderoso pensamento de metta, encobrindo uma direção do globo, então outra, e depois outra, até que o globo inteiro esteja coberto e inteiramente envolvido por luminosos pensamentos de amor universal.

Projetamos em seguida para o vasto espaço raios de metta para todos os outros seres em outros mundos, primeiramente nas quatro direções cardeais – leste, oeste, sul e norte – então nas direções intermediárias – nordeste, sudeste, noroeste e sudoeste – e então acima e abaixo, encobrindo todas as dez direções com abundantes e imensuráveis pensamentos de amor universal.


Método 3

De acordo com a cosmologia Budista há diversos sistemas de mundo habitados por inúmeras categorias variadas de seres em diferentes estágios de evolução. Nossa terra é apenas um cisco em nosso sistema mundial, e este é por sua vez apenas um pequeno ponto no universo com seus quase infinitos sistemas mundiais. Direcionados a todos os seres em todos os lugares é que devemos radiar pensamentos de amor ilimitado. Isso é desenvolvido na próxima prática, a universalização de metta.

A universalização de metta é efetuada em três meios específicos:

      1.      Projeção generalizada (anodhiso-pharana),    
      2.      Projeção especificada (odhiso-pharana),
      3.      Projeção direcionada (disa-pharana).

     De acordo com o Patisambhidamagga, a projeção generalizada de metta é praticada em cinco modos, a projeção específica em sete meios, e a projeção direcionada em dez. Estes dez meios direcionados podem ser combinados com as cinco categorias de projeção generalizada e com as sete categorias de projeção específica, conforme demonstramos abaixo. Em cada um desses modos de prática, qualquer parte das quatro frases da fórmula padrão de metta – “Que eles possam estar livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade” – pode ser usada como o pensamento para a projeção. Assim os quatro tipos de pensamentos aplicados aos cinco, sete e cento e vinte objetos de metta somam ao todo quinhentos e vinte oito modos de projeção. Qualquer um desses meios pode ser usado como o veículo para alcançar a absorção (jhana) através da técnica de metta-bhavana. (Veja Vism. IX, 58).

PROJEÇÃO GENERALIZADA

Os cinco modos de projeção generalizada são como segue:

      1.      Que todos os seres (sabbe satta) estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

     2.      Que todos aqueles que respiram (sabbe pana) estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

      3.      Que todas as criaturas (sabbe bhuta) estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que elas possam viver em felicidade.

     4.      Que todos aqueles com existência individual (sabbe puggala) estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

    5.      Que todos aqueles que estejam encarnados (sabbe attabhavapariyapanna) estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

PROJEÇÃO ESPECÍFICA

Os sete meios de projeção específica são como segue:

     1.      Que todas as mulheres (sabbe itthiyo) estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que elas possam viver em felicidade.

     2.       Que todos os homens (sabbe purisa) estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

     3.      Que todos os Nobres (sabbe ariya) estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

    4.      Que todos os mundanos (sabbe anariya) estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

      5.      Que todos os deuses (sabbe deva) estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

     6.      Que todos os seres humanos (sabbe manussa) estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

     7.      Que todos aqueles em estado de miséria (sabbe vinipatika) estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

PROJEÇÃO DIRECIONADA

Os dez meios de projeção direcionada envolvem estender pensamentos de metta para todos os seres nas dez direções. Este método, em sua forma básica, é aplicado a classe de seres (satta), o primeiro dos cinco objetos generalizados de metta. Mas pode ser desenvolvido ainda mais ao estender metta através de cada um dos cinco meios de projeção generalizada e os sete meios de projeção específica, conforme veremos.

   I.                     
       1.      Que todos os seres no leste estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

       2.      Que todos os seres no oeste estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

       3.      Que todos os seres no norte estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

       4.      Que todos os seres no sul estejam livres hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

       5.      Que todos os seres no nordeste estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

       6.      Que todos os seres no sudeste estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

      7.      Que todos os seres no noroeste estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

      8.      Que todos os seres no sudoeste estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

       9.      Que todos os seres acima estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

      10.  Que todos os seres abaixo estejam livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

II.                 
1-10. Que todos aqueles que respiram, na direção leste, possam estar livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade. (Seguido da direção oeste, sul, norte, etc. e assim por diante).

III.              
1-10. Que todas as criaturas na direção leste (oeste, sul,...acima, etc.) possam estar livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que elas possam viver em felicidade.

IV.              
1-10. Que todos aqueles com existência individual na direção leste (oeste, sul,...acima, etc.) possam estar livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

V.                 
1-10. Que todos os encarnados na direção leste (oeste, sul,...acima, etc.) possam estar livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

VI.              
1-10. Que todas as mulheres na direção leste (oeste, sul,...acima, etc.) possam estar livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que elas possam viver em felicidade.

VII.           
1-10. Que todos os homens na direção leste (oeste, sul,...acima, etc.) possam estar livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

VIII.        
1-10. Que todos os Nobres na direção leste (oeste, sul,...acima, etc.) possam estar livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

IX.              
1-10. Que todos os mundanos na direção leste (oeste, sul,...acima, etc.) possam estar livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

X.                 
1-10. Que todos os deuses na direção leste (oeste, sul,...acima, etc.) possam estar livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

XI.              
1-10. Que todos os seres humanos na direção leste (oeste, sul,...acima, etc.) possam estar livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.

XII.           
1-10. Que todos aqueles em estados de miséria na direção leste (oeste, sul,...acima, etc.) possam estar livres da hostilidade, livres da aflição, livres do estresse; que eles possam viver em felicidade.


EXPLICAÇÃO

Nesta técnica de universalizar metta, cada uma das cinco categorias da projeção generalizada refere-se à dimensão da existência animada, senciente, ou orgânica, pertencendo as três esferas mundanas, ou seja, kamaloka, as esferas de existências sensoriais onde o desejo é a motivação primordial; rupaloka, os domínios dos radiantes deuses Brahmas constituídos por matéria sutil; e arupaloka, os domínios de seres sem forma constituídos por pura vida mental. Seja um “ser” ou aquilo que “respira” ou uma “criatura”, ou aquilo que tem “existência individual” ou os que “estão encarnados” – todos se referem à totalidade da existência animada, a distinção sendo que cada termo expressa exaustivamente um aspecto particular da vida em sua totalidade.

Quando visualizando cada categoria, devemos manter em mente o aspecto específico expresso por sua designação. Se alguém treinar sua mente na maneira de “furadeira mental” após ter exercido-a com os primeiros dois métodos, o significado dos cinco termos generalizados se tornará claro. No momento em que tiver completado os dois métodos, a consciência estará suficientemente desenvolvida e abrangente. E com tal consciência, quando cada uma destes conceitos universais for compreendido, a universalização de metta acontecerá naturalmente e sem esforço. A projeção neste caso se torna uma correnteza de amor que “flui para fora” em medida abundante em direção ao objeto mental conceituado – todos os seres, todas as criaturas, etc.

Cada uma das sete categorias de projeção específica abrange uma parte da gama total da vida, e em combinação com outras, exprime o inteiro. Itthi refere-se ao princípio feminino em geral, abrangendo todas as fêmeas entre devas, seres humanos, animais, demônios, espíritos e habitantes do inferno. Purisa significa o princípio masculino em todas as esferas existenciais, e ambos itthi e purisa juntos abrangem a totalidade. Novamente, de outro ângulo, os ariyas ou Nobres que transcenderam o sofrimento, e anariyas ou mundanos que ainda estão presos à roda dos ciclos do vir-a-ser, abrangem a totalidade. Ariyas são aqueles que entraram no caminho transcendental; eles podem ser encontrados tanto no mundo dos seres humanos como nos mundos celestiais, e assim formam o topo da pirâmide da existência senciente. Mundanos estão em todas as esferas da existência e constituem o corpo da pirâmide da base até quase altura, assim podemos dizer. Da mesma forma, as três categorias de deva, manussa e vinipatika – deuses, seres humanos e aqueles que caíram em estados de miséria e privação – abrangem a totalidade em termos de status cosmológico. Devas, os radiantes seres celestiais, formam a camada superior, seres humanos o meio, e vinipatikas a camada inferior do monte cosmológico.

A “furadeira mental” em termos de projeção direcionada, a projeção de metta às doze categorias de seres encontrados nas dez direções, faz da universalização de metta uma experiência extremamente emocionante. Conforme nos colocamos mentalmente em uma direção e então deixamos o amor fluir e cobrir toda aquela região, literalmente transportamos a mente às alturas mais sublimes conduzindo-a até samadhi, a concentração absorta da mente. 

Quando projetamos este desejo para que os outros vivam em felicidade, livres da hostilidade, aflição e estresse, não apenas nos elevamos a um nível onde a verdadeira felicidade prevalece, mas colocamos em andamento poderosas vibrações conduzindo à felicidade, o esfriamento da inimizade, aliviando aflições e conflitos. Será compreendido, então, que o amor universal infunde bem-estar e felicidade e remove o sofrimento físico e mental causado por poluentes mentais como hostilidade, inimizade e raiva.

As Bençãos de Metta

    “Monges, quando o amor universal conduzindo à libertação da mente é ardentemente praticado, desenvolvido, frequentemente recorrido, usado como o veículo principal (para a iluminação), é feito a base de suas vidas, inteiramente estabelecido, bem consolidado e aperfeiçoado, então estas onze bênçãos podem ser esperadas. Quais onze?

  Um indivíduo dorme feliz; acorda feliz, não sofre de pesadelos; é querido tanto para com seres humanos quanto para seres não humanos; os deuses o protegem; fogo algum ou veneno ou armas não o machucam; sua mente se concentra rapidamente; a expressão de seu rosto se torna serena; sua morte é tranquila; e mesmo que este não consiga atingir nenhum estágio mais avançado em seu caminho, pelo menos renascerá no estado do mundo de Brahma.

   Monges, quando o amor universal conduzindo a libertação da mente é ardentemente praticado, desenvolvido, frequentemente recorrido, usado como o veículo principal (para a iluminação), feito a base de suas vidas, inteiramente estabelecido, bem consolidado e aperfeiçoado, então estas onze bênçãos podem ser esperadas.” 

--- A.N 11.16

Metta cetovimutti – amor universal conduzindo à libertação da mente – significa o alcance de samadhi, absorção baseado na meditação sobre metta. Como metta libera a mente do cativeiro da raiva e ódio, egocentrismo, ganância e ilusão, isso se constitui como um estado de libertação. Cada vez que praticamos metta, não importa quão curto o período de duração seja, desfrutamos um pouco da liberdade da mente. Libertação ilimitada da mente, contudo, só pode ser esperada quando metta estiver inteiramente desenvolvido em samadhi.

As várias aplicações de metta, conforme indicadas pelos termos “praticada, desenvolvida,” etc., significam uma força bem estruturada vinda não apenas de algumas horas de meditação, mas também convertendo todas as nossas ações, palavras e pensamentos em atos de metta.

Por “praticado” (asevita) significa a prática ardente de metta, não apenas como um exercício intelectual, mas sim por fazer um compromisso de coração inteiro e torna-lo a nossa filosofia da vida, algo que condiciona nossas atitudes, o modo de ver as coisas e nossa conduta. 

Por “desenvolver” (bhavita) é implicado os vários processos de cultura interna e integração mental efetuado pela prática da meditação do amor universal. Como a meditação trás a unificação da mente por integrar as várias faculdades, isso é chamado de desenvolvimento da mente. O Buda ensinou que o mundo mental inteiro é desenvolvido pela prática da meditação do amor universal, conduzindo à libertação da mente e a transformação da personalidade.

“Frequentemente recorrido” (bahulikata) enfatiza a prática repetida de metta durante todas as horas em que estamos acordados, em ação, palavras e pensamentos, e mantendo o ritmo desta consciência durante o dia. Ação repetida significa a geração de poder. Todas as cinco faculdades espirituais, isto é, fé, vigor, atenção plena, concentração e sabedoria, são exercidas e cultivadas pela prática repetida de metta.

“Usado como o veículo principal” (yanikata) significa um “compromisso total” ao ideal de metta como o único método válido para a solução de problemas interpessoais e como um instrumento para o crescimento espiritual. Quando metta é o único “modo de comunicação”, o único veículo, a vida automaticamente se torna “uma moradia divina” conforme mencionado no Metta Sutta.

“É feito a base de sua vida” (vatthikata) é fazer de metta a base de nossa existência em todos os aspectos. Metta se torna nosso recurso principal, o refúgio de nossas vidas, tornando nosso refúgio no Dhamma uma realidade.

“Inteiramente estabelecido” (anutthita) refere-se a uma vida que é firmemente enraizada em metta, é ancorada em metta em todas as circunstâncias. Quando metta é praticado naturalmente, sem esforço algum, nem mesmo por erro violamos as leis do amor universal.

“Bem consolidado” (paricita) significa que estamos tão habituados a metta que permanecemos imerso nele sem esforço, tanto na meditação como em nossa conduta na vida diária.

“Aperfeiçoado” (susamaraddha) indica um modo de plenitude através da aderência e cultivo, conduzindo àquele estado completamente integrado no qual desfrutamos de perfeito bem estar e felicidade espiritual, indicado pela passagem detalhando as onze bênçãos de metta.

Os benefícios de metta são realmente grandes e abrangentes. Para um seguidor do Buda este é um instrumento supremo que pode ser exercido com vantagens em qualquer lugar.


O Poder de Metta

O benefício subjetivo do amor universal é evidente o suficiente. O desfrute do bem estar, boa saúde, paz de mente, expressão serena, e afeição e boa vontade de todos são realmente bênçãos da vida vindas da prática da meditação sobre metta. Mas o que é ainda mais maravilhoso é o impacto que metta tem sobre o ambiente e sobre outros seres, incluindo animais e devas, conforme as escrituras Pali e comentários nos ilustram com um número de histórias memoráveis.

Certa vez o Buda estava voltando de sua coleta de esmolas juntamente com seu grupo de monges. Conforme se aproximavam de uma prisão, em consideração a um abundante suborno dado por Devadatta, o primo mal e ambicioso do Buda, o executor soltou o violento elefante Nalagiri, que era usado para a execução de criminosos. Conforme o elefante bêbado corria em direção ao Buda alardeando ferozmente, o Buda projetou poderosos pensamentos de metta para ele. O Venerável Ananda, o atendente do Buda, ficou tão profundamente alarmado pela segurança do Buda que correu em frente a ele para protegê-lo, mas o Buda pediu que ele se afastasse, pois a projeção do amor em si seria o bastante. O impacto da radiação de metta feita pelo Buda foi tão imediata e intensa que na hora em que o animal se aproximou do Buda, ele estava completamente domado, tal como um bêbado que fica imediatamente sóbrio através de algum poder mágico ou feitiço. As presas, relata a história, se abaixaram em sinal de reverência da forma como elefantes treinados fazem em circos.

O Visuddhimagga registra um caso de um proprietário de terra de Pataliputra (hoje em dia, Patna), Visakha era seu nome. Ele ouviu o rumor de que a ilha do Sri Lanka era um verdadeiro jardim do Dhamma com seus inúmeros santuáriose e estupas adornando a ilha. E era também abençoada por um clima favorável, as pessoas eram altamente morais, seguindo o ensinamento do Buda com grande fervor e sinceridade.

Visakha decidiu visitar o Sri Lanka e passar o resto de sua vida lá como um monge. Conformemente, ele passou sua grande fortuna para sua esposa e filhos e deixou sua casa com apenas uma moeda de ouro. Ele ficou por algum tempo no porto da cidade de Tamralipi (Tamluk hoje em dia), aguardando um barco, e durante este tempo ele se engajou em negócios e vendas e conseguiu fazer mil moedas de ouro.

Eventualmente ele chegou ao Sri Lanka e foi para a capital de Anuradhapura. Ali ele se dirigiu ao famoso mosteiro Mahavihara e pediu a permissão do abade para entrar no Sangha. Conforme ele foi conduzido ao grande salão para a cerimônia de ordenação, o saco que carregava com si com as mil moedas caiu de sua cintura. Quando questionado, “O que é isto?" ele disse, “Eu tenho mil moedas de ouro, senhor”. Quando ele foi avisado de que monges não podiam possuir dinheiro, ele disse, “Oh não, eu não desejo possuir dinheiro, mas gostaria de distribuí-lo entre todos que vierem para esta cerimônia”. Conformemente, ele abriu seu saco e adornou o quintal inteiro do salão de cerimônia, dizendo, “Que ninguém que veio testemunhar a ordenação de Visakha saia de mãos vazias”.

Após passar cinco anos com seu mestre, ele decidiu ir à famosa floresta de Cittalapabbata, onde um grande número de monges com poderes sobrenaturais viviam. Durante seu percurso até a floresta ele chegou a uma divisão na estrada e ficou parado pensando em qual direção tomar. Como ele estava praticando a meditação sobre metta assiduamente, ele viu uma deva que vivia em uma pedra ali por perto, apontando sua mão em direção ao caminho certo. Após ter chegado ao mosteiro da floresta de Cittalapabbata, ele habitou em uma das cabanas.

Lá residindo por quatro meses, conforme ele pensava que havia chegado a hora de partir na manhã seguinte, ele ouviu alguém chorando e perguntou, “Quem está ai?”. Uma deva que vivia em uma árvore manila* próximo a sua cabana disse, “Venerável senhor, eu sou Maniliya (isto é, pertencendo à árvore manila).

(Nota do tradutor: fui atrás de informação a respeito desta árvore na internet, mas não consegui achar muito coisa a respeito. Aparentemente, é uma espécie de árvore que dá mangas).

“E porque está chorando?”.

“Porque o senhor está pensando em ir embora daqui.”

“E qual benefício tens com minha residência aqui?”

“Venerável senhor, enquanto tens vivido aqui, as devas e outros seres não humanos têm se tratado com gentileza e bondade. Quando for embora, eles retornarão a suas discussões e brigas.”

“Bem, se minha vivência aqui faz com que todos vivam em paz, então tudo bem.” E assim ele permaneceu lá por mais quatro meses. É relatado nesta história que, quando ele novamente pensou em ir embora, novamente aquela divindade começou a chorar. Então este Ancião ficou lá permanentemente e atingiu Nibbana naquele local. Tal é o impacto de metta-bhavana sobre os outros, até mesmo entre seres invisíveis.

Há ainda outra história registrada sobre uma vaca. Foi dito que certa vaca estava amamentando seu filhote numa floresta. Um caçador querendo matá-la lançou uma lança que, quando atingiu seu corpo, bateu de volta como uma bola jogada contra a parede. Tão poderoso é o sentimento de metta – o amor-bondade. Este nem mesmo é o caso de alguém que desenvolveu metta-samadhi (absorção na meditação sobre o amor universal). É apenas um simples caso de consciência amorosa de uma mãe para com seu filho.

De fato, inúmeros são os exemplos do poder de metta. Os comentários nas escrituras Pali são repletos de histórias, não apenas de monges, mas também de pessoas comuns que superaram vários perigos, incluindo o de armas e veneno, através do simples poder de metta – amor desinteressado.

Mas não pense que metta é apenas um mero sentimento. É o poder dos fortes. Se lideres de diferentes caminhos da vida dessem uma chance a metta, nenhum princípio ou diretriz de ação haveria com maior eficácia e sucesso em todas as esferas.

Em todas as coisas, o homem é a medida principal. Se o homem decidisse substituir metta como política de ação pela agressão e ódio, o mundo se tornaria em um verdadeiro domínio da paz. Pois é apenas quando o homem tiver paz em si mesmo, e boa vontade ilimitada para com os outros, que a paz no mundo se tornará verdadeira e duradoura.

O artigo original em inglês pode ser encontrado no seguinte endereço: http://www.accesstoinsight.org/lib/authors/buddharakkhita/wheel365.html#ch8

quarta-feira, 13 de março de 2013

Nossos Corpos Voltarão aos Elementos


Nossos Corpos Voltarão aos Elementos

Por

Ajahn Anan Akiñcano

Tradução Anônima do Tailandês para o Inglês

Tradução para o Português

Davi Coêlho


Quando colocamos empenho na prática da meditação, a mente se recolherá em quietude. Isso é samādhi (concentração). Usamo-la para investigar esta pilha de sankhāra (formações): esta pilha de rūpa (matéria) e nāma (mente). No começo começamos a olhar diretamente à matéria: dos cabelos da cabeça, cabelos do corpo, unhas, dentes, pele e nesta massa inteira que chamamos de um corpo. Agora donde surge sua verdadeira essência?

A verdadeira essência do corpo vem dos elementos. A comida que nos dá suporte inicialmente vem do elemento terra. Podemos ver isso com as árvores. Elas absorvem os minerais e a umidade da terra. O sol dá suporte ao processo de fotossíntese para as folhagens da árvore e através disso a árvore cresce. Eventualmente ela produz flores e frutos. No início a árvore cresce e floresce e finalmente produz flores e frutos. Isso pode provê alimento e um lar para diferentes tipos de animais, e se torna parte do ciclo da alimentação, dando suporte à vida.

Seres humanos dependem de animais, plantas e frutas para manter suas forças vitais. É um ciclo que não para de girar: tudo é dependente dos elementos de terra, ar, água e fogo, provendo este corpo com terra, ar, água e fogo, facilitando assim seu crescimento posterior.

Porém, quando não compreendemos este simples e natural processo e nos apegamos a ele, pensando que este amontoado de elementos sou “eu” ou “meu”, não conseguimos reconhecer que no final tudo irá apenas se acabar. No final, tudo irá se degenerar e mudar sua forma. Quando a respiração chegar a seu fim, este corpo começará a se decompor. Os diferentes tipos de bactérias começarão a comer e roer e o corpo mudará sua cor até que os vários elementos se decomponham de volta à seus respectivos elementos, tudo isso seguindo seu curso natural. Terra volta para terra, água de volta para água, fogo de volta para o fogo, e ar para o ar. Todos estes fatores condicionados fizeram com que esta forma chegasse ao seu fim.

Portanto, quando vemos que o corpo chega a seu fim desta maneira, onde está este “eu”? No passado, considerávamos este corpo como sendo nós mesmos, mas agora onde está este ser? Onde estão todas as “minhas” coisas? Nossos pais, a quem chamávamos de “mãe” e “pai”, quando suas respirações chegarem a um fim, para onde “eles” foram? Os amontoados de elementos se quebraram e se espalharam, terra de volta a terra, água a água, fogo ao fogo, e ar ao ar.

A verdade é assim, desta maneira. Mas se formos atrás de todas as convenções mundanas, ainda há um “eu”, um “ele”, um “eles”. Ainda há “relações”, “irmão”, “irmã”, “marido”, “esposa”, “mãe e pai”, “filhos e filhas”. Estas coisas existem de fato em nossa realidade, mas são apenas convenções. E se o coração não conseguir enxergar a verdade, então ele irá pensar que todas essas convenções são a realidade final – que elas são sólidas e que contém uma existência própria.

O Buda descobriu a verdade; ele descobriu que o que consideramos como sendo realidade não existe de fato. É tudo vazio. Há apenas o surgimento, existência, e desparecimento. Essa é a realidade de todo fenômeno. Ele viu saccadhamma, ou a verdade sobre as coisas até os seus mínimos detalhes. Sua mente habitando na benção da libertação, ele sentiu que seria impossível para as outras pessoas seguirem este caminho e ver seus frutos. Ele pensou que porque não há nada mais refinado e extraordinário do que Nibbāna, seria mais fácil se ele permanecesse em silêncio.

Então Brahma Sahampati, uma divindade que estava intimamente ligado ao Buda desceu até a Terra e pediu que ele ensinasse essa verdade aos outros. O Buda pensou primeiramente em seus dois professores que tivera no passado, Uddaka Rāmaputta e Alara Kalāma, mas ambos já haviam renascido em domínios brahmânicos imateriais, onde os seres carecem de bases sensoriais, e, portanto não podiam ouvir os ensinamentos. Então ele se recordou do pañcavaggiyā, os cinco ascetas que haviam previamente dado assistência a ele nos seus dias de práticas de austeridade. Ele viu que estes seriam capazes de compreender o Dhamma. O Venerável Aññā Konóañña foi o primeiro a compreender o Dhamma, com o restante do grupo seguindo não muito tempo depois. Por fim todos conseguiram atingir o estado de arahant (santidade) juntos. Eles conseguiram compreender Nibbāna porque todos viram que toda matéria e mente são apenas impermanente, insatisfatória, e que tudo está destituído de uma essência e identidade.

Se tivermos samādhi (concentração) e usarmos sua força para investigar, passo a passo, seremos capazes de ver, ver que este corpo não é nem belo nem atraente. É apenas constituído por elementos. Você já viu uma folha? Imagine uma. Ela começa como um pequeno broto, então se torna mais verde e cresce. Então fica velha, murcha, e eventualmente cai no chão. Todo o verde se foi e agora é apenas marrom. Esta folha marrom gradualmente se decompõe. E finalmente, ela volta à terra.

Nosso corpo é o mesmo que essa folha; o mesmo que a árvore, a casca, o cerne. Todos passam pelo processo de condições mutantes nesta sequência – quando a força vital se vai, eles se decompõem e desaparecem. No fim, não importa se forem os cabelos da cabeça, cabelos do corpo, unhas, dentes, ou pele, todos seguem seu curso natural de mudanças. A cor muda e eles se quebram. Os ossos são os mesmos; eles vão do branco ao marrom. No fim eles apenas acabam como o elemento terra, assim como eram originalmente. Então a percepção de “ossos” de um “corpo” desparecem e apenas o elemento terra permanece. Quando realmente dividimos essas coisas em partes e as analisamos como o elemento terra, vemos que tudo não passa de uma grande massa de elementos naturalmente existindo que se juntaram para dar formação a este corpo. Se dividirmos ainda mais, vemos que são apenas pequenas moléculas e elementos. Se separarmos tudo, vemos que é apenas energia. Mas no fim isso ainda pode ser separado até que nem mesmo isso esteja lá. Apenas uma massa sem nenhuma essência permanente, uma fusão de energia que eventualmente se dissipa.

É o mesmo com a água. São apenas hidrogênio e oxigênio que se juntaram. Mas se separarmos estas duas coisas a água já nem está mais lá. Do mesmo modo, o que chamamos de “nós” e “nossos” corpos não tem nenhuma essência verdadeira, pois também irão ter que se quebrar e desaparecer. Os rūpa sankhāras (formações materiais) e nāma sankhāras (formações mentais) que são dependentes de causas e condições simplesmente surgem, permanecem por um instante e depois desaparecem. Se o coração estiver calmo em samādhi, quando investigarmos, ele será capaz de penetrar e ver claramente. Podemos então nos desprender das convenções de um ser, uma pessoa, eu, nós e eles. Mas se o coração não tiver este samādhi, então apenas veremos as coisas em termos de “meu” e “eu”.

Portanto, temos que desenvolver o poder de samādhi. Investigando o corpo como elementos é um método que podemos usar, dividindo o corpo em quatro partes. Como uma pessoa cortando uma vaca em quatro partes. Vá até lá e investigue cada parte, passo a passo. O elemento terra são todas as partes duras do corpo. As partes líquidas tem a característica de serem fluida e macia; isso é o elemento água. O elemento ar é basicamente a respiração (mas também gases que se encontram no corpo), e os locais onde há calor é o elemento fogo. Todos os quatro elementos se combinam para cumprir seu propósito. E mesmo assim no final quando eles se quebram e desintegram não conseguimos encontrar nenhuma pessoa, nenhum ser, eu, nós ou eles.

Portanto a sensação que temos de que o corpo é “nosso” – de onde ela vem? Ela vem da própria mente em si, a mente ainda pressa em ignorância que se apega a tudo. Perguntamos a nós mesmos, “Como é que esse corpo não é meu? Estas sensações dolorosas que surgem e ai eu sinto dor aqui, dor ali. Se eu me sentar por mais tempo, machuca mais ainda, talvez até fique dormente. Então como é possível que essa sensação não seja minha?”

Bem, se essas sensações são suas e você as rotulou com sendo sua propriedade, antes que você tivesse vindo aqui sentar-se para meditar, tinha estas mesmas sensações? É claro que não. Não tinha esta dor ou desconforto. Conforme veio até aqui para se sentar por um bom tempo, sua circulação não está se movendo tanto quanto antes, portanto essas sensações dolorosas aparecem. E estas sensações, elas estão sempre ali? Elas vão se dissipar brevemente ou não? É claro que vão se dissipar. Estas sensações estão apenas surgindo, permanecendo por um instante e depois desaparecem.

Podemos nos questionar também, “Estas sensações são a mente? São a mente, ou apenas uma parte dela?” Vemos então que são apenas algo que surgiu. Não estão aqui o tempo todo. A mente permanece, mas vedanā (sensação) surgiu, permanecerá aqui por um instante e depois desaparecerá. Esta é a natureza de vedanā khandha (o agregado sensação).

E mesmo assim nossas mentes ainda se apegam a estas sensações e as puxam de lá pra cá com todo o sofrimento embutido nelas. Não temos ainda força o suficiente, nosso sati (atenção plena) ainda está fraco. Então por isso é que temos que praticar. Temos que chegar ao estágio onde sati e samādhi (concentração) estejam firmes. Temos que nos sentar na meditação e realizar a prática até que nossos corações estejam calmos. Até que estejam imóveis. Então podemos nos dirigir à nossas investigações.

Às vezes o coração está calmo, às vezes não, mas isso é normal. Temos que dar continuidade a nossa prática com paciência, colocando empenho para desenvolver nossa meditação.

Texto original retirado do livro Sotapattimagga: The Path of the Sotapanna, que é gratuitamente disponibilizado no endereço: http://www.watmarpjan.org/en/pdf/en-SOTA-LOW.pdf  

quarta-feira, 6 de março de 2013

Praticando Para a Libertação - Nibbāna


Praticando Para a Libertação – Nibbāna

Por

Ajahn Anan Akiñcano

Diversos Tradutores Anônimos do Tailandês Para o Inglês

Tradução do Português

Davi Coêlho

Quando temos um olho que é funcional, um objeto visual e luz, o sentido da visão surge. O obejeto visual contata a base sensorial e manda uma impressão diretamente para o coração. Similarmente, audição, cheiro, paladar, toque e cognição mental surgem diferindo-se apenas no que diz respeito o órgão sensorial e seus correspondentes objetos sendo sentidos. Se esta impressão sensorial vier através do olho, é chamado de cakkhuviññāṇa (consciência visual), para a orelha é chamado de sota-viññāṇa (consciência auditiva), o nariz, ghāna-viññāṇa (consciência olfatória), a língua, jivhā-viññāṇa (consciência do paladar), o corpo, kāya-viññāṇa (consciência corporal), e a mente, manoviññāṇa (consciência mental). Todos estes seis tipos de viññāṇa (consciência) são da mesma natureza. Eles surgem, persistem e desaparecem. Mas todo este processo ocorre de forma muito veloz.

Quando a mente se agarra à consciência, temos uma sensação de que, “Eu estou vendo” ou “Eu estou ouvindo”. Então nos agarramos às sensações prazerosas ou dolorosas que surgem; isso é vedanā (sensação). Então a mente forma ideias, que são saṅkhāra (formações mentais), e coloca um rótulo nelas, tornado-se saññā (memória e percepção). É assim que os nāmadhammas (agregados mentais) funcionam juntamente. É normal para nós a experiência do mundo nesta forma.

Todas as nossas experiências funcionam neste processo e quanto mais nos agarramos a elas, mais o ciclo de prazer e dor surge. Mas o Buda pediu que parássemos por um instante e que investigássemos este processo separando os khandhas (agregados) e que víssemos os quatro elementos com paññā (discernimento). Fazemos isto para ver claramente como este amontoado de matéria é apenas composto pelos quatro grandes elementos (terra, água, fogo e ar). Não é nada mais do que saṅkhata (fabricações), algo que foi formado em conjunção com outras coisas e que está em constante estado de oscilação. Ainda sim, tudo isso tem que se despedaçar e desaparecer. E no que diz respeito aos agregados mentais – vedanā, saññā, saṅkhāra e viññāṇa – estes duram por um período de tempo ainda menor do que a matéria antes que desapareçam.

É preciso instigarmos paññā em nossos corações para que a mente não vá a busca de e depois se apegue a todas as coisas que experimentamos como sendo “minhas”. A mente que consegue fazer isso deixará temporariamente de lado todas as impressões mentais e não se envolverá com estas. Isso dá surgimento à vacuidade da identidade, ou à ausência de um “eu”, e apenas isto é Nibbāna – um fogo extinguido e que agora esfriou. Isso é a cessação, o abandono pelo anseio e desejo por estados mentais – o não apego.
Mas se desejarmos pela experiência de Nibbāna e criarmos a expectativa de temos ela toda a vez, então jamais compreenderemos Nibbāna. Luang Pu Chah sempre enfatizava que temos que nos desprender de tudo. A coisa mais importante a se fazer é praticar para se desprender.

Apesar de não nos desapegarmos de toda a mente e matéria cem por cento (pois isso seria o nível do arahant), pelo menos teremos entendimento e insight sobre o fenômeno de mente e matéria. Dependo da profundidade de nossa investigação, podemos nos desprender até certo ponto do modo como temos a nossa experiência corriqueira do mundo. Nosso sofrimento diminuirá, porque estaremos vendo as coisas de acordo com a verdade suprema.

Então porque o discernimento não surge com regularidade? É porque nossa força e estabilidade em samādhi (concentração) não é ainda o suficiente. Samādhi é uma firmeza inabalável do coração. É um coração que tem estabilidade em um único objeto, seja este a palavra-mantra “buddho”, “dhammo”, “sangho”, a nossa respiração, ou qualquer objeto que escolhemos. Samādhi fará com que o coração recolha-se em quietude, mesmo que seja por apenas um instante, para que possamos ter força para investigar esta forma física, rūpa. Conseguimos ver que é instável? Temos estudado ela o suficiente para enxergá-la claramente ou não? Esta fabricação é apenas uma condição natural cuja natureza é oscilar e mudar. Não há nada de errado ou irregular com ela; de fato, não poderia ser de outro jeito. Você consegue ver isso?

Este corpo físico tem dor embutido em todos os cantos como sua condição normal, tem mudança constante e instabilidade como sua natureza, tem velhice como parte inseparável dele, e eventualmente tem que se despedaçar e desparecer. É apenas isso.

Nascemos neste domínio de seres humanos e temos uma forma outra vez. Ela deve seguir este processo. Nascido assim em todos os mundos; em todas as vidas deve ser deste jeito. E não é só para nós humanos – devatās (seres celestiais) são feitos de saṅkhāras (formações) igualmente. Eles são compostos por matéria, mas esta é chamada de opapātika, isto é, estes seres renascem espontaneamente (sem ser gerados em um ventre como seres humanos) em uma forma material mais sutil. Ainda sim, seus corpos se quebram que nem os nossos. Eles não podem viver por tempo indeterminado, pois também são parte de saṅkhata-dhātu (o elemento condicional).

Mas há também outro lado disso tudo chamado de asaṅkhata-dhātu, o elemento não condicionado – isto é Nibbāna. Nibbāna é a realidade. É algo que está aqui, mas que não podemos localizar em canto algum ou direção alguma. Não é uma destinação em nenhum mundo convencional, porque é vazio. É vacuidade que não pode ser medida em tamanho algum. Este estado de vazio não tem lugar definido, não tem cor alguma, e ainda sim, ali está. É a verdade, bem aqui, - a realidade.

Nibbāna é a única coisa que realmente sempre esteve aqui porque é a única coisa que é permanente e durável. Ela não muda nem oscila, porque não tem nenhuma causa como base. Não é nenhum tipo de saṅkhāra, é visaṅkhāra (aquilo que não tem condições e por isso não muda). Mas está ali, eles co-existem, fabricações e Nibbāna. Quando temos saṅkhāra existindo, visaṅkhāra também deve existir ao seu lado. Isso é a realidade.

Texto original retirado do livro Sotapattimagga: The Path of the Sotapanna, que é disponibilizado gratuitamente no endereço: http://www.watmarpjan.org/en/pdf/en-SOTA-LOW.pdf 


segunda-feira, 4 de março de 2013

Cérebro e Coração Juntos - Trazendo Sabedoria Para os Brahma-viharas


Cérebro e Coração Juntos:

Trazendo Sabedoria Para os Brahma-viharas

Por

Thanissaro Bhikkhu

Tradução

Davi Coêlho


Os brahma-viharas, ou “atitudes sublimes”, são os ensinamentos primários do Buda para o coração – aqueles que mais se conectam diretamente com nosso desejo para com a verdadeira felicidade. O termo brahma-vihara significa literalmente “local de moradia dos brahmas”. Brahmas são deuses que vivem nos domínios celestiais mais elevados, vivendo em uma atitude ilimitada de boa vontade, compaixão, alegria empática e equanimidade. Estas atitudes ilimitadas podem ser desenvolvidas a partir das versões mais limitadas destas emoções que sentimos no coração humano.

Destes quatro sentimentos, boa vontade (metta) é o mais fundamental. É o desejo pela verdadeira felicidade, um desejo que você pode direcionar para si mesmo e para os outros. Boa vontade foi a motivação subjacente que levou o Buda a sua procura pela iluminação e eventualmente a ensinar os outros o caminho para esta após ele mesmo o ter encontrado.

As próximas duas emoções na lista são essencialmente a aplicação da boa vontade. Compaixão (karuna) é o que a boa vontade sente quando encontra o sofrimento: ela quer que o sofrimento pare. Alegria empática (mudita) é o que a boa vontade sente quando encontra a felicidade: ela deseja que esta continue. Equanimidade (upekkha) é um sentimento diferente, que atua como um suporte para e como uma forma de checar os outros três. Quando você encontra sofrimento que não pode ser impedido não importa o quanto você tente, precisa de equanimidade para evitar a criação de sofrimento adicional e para canalizar suas energias às áreas onde sabe que pode ser de sua ajuda. Deste modo, equanimidade não é frieza de coração ou indiferença. Ela simplesmente faz com que a boa vontade seja focada e efetiva.

Fazer com que estas atitudes tornem-se ilimitadas requer esforço. É fácil sentir boa vontade, compaixão e alegria empática para pessoas a quem você gosta e ama, mas certamente há pessoas a quem você não gosta – geralmente por bons motivos. Similarmente, há muitas pessoas para quem é fácil sentir equanimidade: pessoas a quem você não conhece muito bem ou não se preocupa muito. Mas é difícil sentir equanimidade para pessoas a quem ama quando estas estão sofrendo. Mesmo assim, se quiser desenvolver os brahma-viharas, deve incluir todas estas pessoas dentro do escopo de sua consciência para que possa aplicar a atitude própria não importa onde ou quando. É ai que seu coração precisa a ajuda de seu cérebro. 
  
Em muitos casos, meditadores creem que se puderem simplesmente adicionar um pouco mais de açúcar ao coração, um pouquinho mais de esforço emocional à sua prática de brahma-vihara, suas atitudes se tornarão ilimitadas. Mas se algo dentro de você continua a borbulhar por motivos de gostar ou odiar aquela ou tal pessoa, sua prática começará a se tornar algo hipócrita. Você começa a pensar, “A quem estou querendo enganar?” Ou então, após um mês dedicado à prática, você ainda se encontra pensando coisas negativas sobre pessoas que te cortam no transito – não mencionado, é claro, as pessoas no mundo que te fizeram algum dano muito sério.

É ai que seu cérebro tem que agir. Se começarmos a pensar sobre o coração como sendo o lado da mente que deseja pela felicidade, o cérebro é o lado que compreende como causa e efeito realmente funcionam. Se seu cérebro e coração puderem aprender a cooperar – isto é, se seu cérebro puder dar prioridade para as causas da verdadeira felicidade, e se seu coração puder aprender a abraçar estas causas – então o treinamento da mente poderá ir longe.

É por isso que o Buda ensinou os brahma-viharas em um contexto de ensinamentos racionais: o princípio da causalidade conforme se desdobra no (1) kamma e (2) no processo de fabricação que dá formação às emoções dentro do corpo e mente. Quanto mais pudermos colocar nossa racionalidade nestes ensinamentos, mais fácil será para colocar nosso coração na desenvoltura destas atitudes que são realmente sublimes. Uma compreensão de kamma ajuda a explicar o que estamos fazendo para que possamos desenvolver as atitudes sublimes e porque isso é desejável em primeiro lugar. Uma compreensão sobre o processo de fabricação ajuda a explicar como podemos pegar nosso coração humano e convertê-lo em um local onde um verdadeiro Brahma possa viver. 

O ensinamento sobre kamma começa com o princípio de que as pessoas experimentam felicidade ou miséria baseado numa combinação de suas intenções passadas e presentes. Se agirmos com intenções inábeis tanto para com nós mesmos quanto para outros, vamos sofrer. Se agirmos com intenções hábeis, experimentaremos felicidade. Portanto, se quisermos ser felizes, temos que treinar nossas intenções para sempre sermos hábeis. Este é o primeiro motivo para desenvolvermos as atitudes sublimes: para que possamos tornar nossas intenções mais confiáveis. 

Algumas pessoas dizem que boa vontade ilimitada vem naturalmente a nós, que nossa natureza búdica* é intrinsecamente compassiva. Mas o Buda nunca disse nada sobre natureza búdica. O que ele realmente disse é que o mundo de nossas mentes é muito mais variado do que o próprio reino animal. Somos capazes de qualquer coisa. Portanto o que vamos fazer com esta capacidade?

(Nota do tradutor: natureza búdica, ou buddha-dhatu, é uma doutrina específica da tradição Mahayana, que diz que todos temos uma natureza sagrada que é a base para nos tornarmos Budas igualmente. Esta doutrina, porém, enquanto bela, não condiz com os ensinamentos do Buda conforme registrados no Cânone Pali).

Poderíamos fazer – e já fizemos – quase tudo, mas a única coisa que o Buda assume é que bem lá no fundo queremos pegar esta capacidade e dedicá-la à felicidade. Portanto a primeira lição em kamma é que se realmente quiser ser feliz, não pode confiar que bem lá no fundo você sabe a coisa certa a fazer, porque isso apenas cultivaria complacência. Intenções inábeis tomariam conta de você e você nem estaria ciente disso. Ao invés disso, deve estar atento para poder reconhecer às intenções inábeis pelo que elas são, e agir apenas sobre aquelas que são hábeis. O modo de assegurar que ficará atento é usar seu desejo pela felicidade e estendê-lo a todos os cantos.

A segunda lição de kamma é que assim como você é o arquiteto principal de sua própria felicidade e sofrimento, outras pessoas também são os principais arquitetos delas. Se você realmente deseja que elas sejam felizes, não deve apenas tratá-las com gentileza. Você também deseja que elas aprendam como criar as causas para a felicidade. Se puder, você deseja como mostrar isso para elas. É por isso que o presente do dhamma – lições em como dar origem à verdadeira felicidade – é o maior dos presentes.

No exemplo mais famoso dado pelo Buda sobre como expressar uma atitude de boa vontade ilimitada, ele não apenas expressa o seguinte desejo pela felicidade universal:

Feliz, em paz,
Que todos os seres estejam alegres em seus corações.
Qualquer ser que seja,
        Fraco ou forte, sem exceção,
        Longo, largo
       Médio, Curto,
       Sutil, Grosseiro,
      Visível ou Invisível,
      Próximo ou Distante,
     Nascidos e por nascer:
Que todos os seres sejam felizes!

Ele imediatamente adiciona um desejo de que todos os seres evitem as causas que levariam eles à infelicidade:

Que ninguém engane a outrem,
Ou odeie qualquer um seja onde for,
Ou por causa da raiva ou irritação
Deseje que outro sofra.

                                  - S.N 1.8

Portanto, se estiver usando a visualização como parte da sua prática da boa vontade, não visualize simplesmente pessoas sorrindo, encobertas por riquezas e prazeres sensuais. Visualize-as agindo, falando e pensando de formas hábeis. Se elas estiverem atualmente agindo sobre intenções inábeis, visualize-as mudando seus modos. Então, se possível, aja para que isso se torne realidade. 

Um princípio similar se aplica a compaixão e alegria empática. Aprenda a sentir compaixão não apenas para aqueles que já estão sofrendo, mas também para aqueles que estão se engajando em ações inábeis que levarão futuramente ao sofrimento. Isso significa que, se estiver enquadrado naquilo que lhe é possível, tentar impedi-los de fazer estas coisas. E aprender a sentir alegria empática não apenas para aqueles que já estão felizes, mas também para aqueles aos quais suas ações presente os levarão futuramente à felicidade. Se você tiver a oportunidade, dê encorajamento.

Mas também deve compreender que não importa quão ilimitado seja o escopo destes sentimentos positivos, seus efeitos vão se deparar com limites. Em outras palavras, não importa o quão forte for sua boa vontade ou compaixão, não deixará de haver pessoas cujas ações anteriores foram inábeis e que não podem ou não irão mudar o seu modo de se comportar no presente. É por isso que precisa de equanimidade como seu meio de manter os pés no chão. Quando encontrar áreas onde não puder ser de ajuda, aprenderá a não se sentir mal. Pense sobre a universalidade do princípio de kamma: ele se aplica a todos indiferente de sua afeição ou não para com determinadas pessoas. Isso lhe coloca em uma posição onde pode enxergar mais claramente aquilo que pode ser alterado, onde você pode ser de ajuda. Em outras palavras, equanimidade não é a aceitação passiva das coisas como elas são. É uma ferramenta para lhe ajudar a desenvolver discernimento em relação às quais tipos de sofrimento você deve aceitar e aqueles que não deve.

Por exemplo, alguém em sua família pode estar sofrendo de Alzheimer. Se você ficar deprimido sobre o fato desta doença se manifestar, estará limitando sua habilidade de ser genuinamente útil. Para ser mais eficaz, deve usar a equanimidade como meio de se desprender daquilo que você quer mudar e focar mais sobre o que pode ser mudado no presente.

Uma terceira lição do princípio de kamma é que desenvolver as atitudes sublimes pode ser útil para atenuar os resultados de suas más ações passadas. O Buda explica isso com uma analogia: se colocar um pedaço de sal em um copo de água, você não pode beber a água que está no copo. Mas se colocar o mesmo pedaço de sal em um rio de água doce, então ainda sim poderia beber a água, porque o rio conteria muito mais água doce do que sal. Quando você cultiva as atitudes sublimes, sua mente é como o rio. O kamma habilidoso de desenvolver estas atitudes no presente é tão expansivo que qualquer resultado de más ações passadas que possa surgir, passará quase que despercebido.

Uma compreensão clara sobre kamma pode também ajudar a corrigir a falsa ideia de que se pessoas estão sofrendo é porque elas merecem sofrer, então, portanto, seria melhor simplesmente deixá-las pra lá. Quando você se pegar pensando desta forma, deve manter quatro princípios em mente.

Primeiramente, quando olhar às pessoas, você não pode ver todas as sementes kármicas de suas ações passadas. Elas podem estar passando pelos resultados de más ações passadas, mas você não sabe quando estas sementes acabarão de germinar. Similarmente, você não tem ideia de quais outras sementes, qualquer potencial maravilhoso latente, poderá germinar em seguida.

Há um ditado em alguns círculos Budistas que diz que se quiser ver as ações passadas de uma pessoa, preste atenção à sua condição presente; se quiser ver a sua condição futura, preste atenção às suas ações presentes.  Este princípio, porém, se baseia em um conceito errado bem comum: aquele que nós temos apenas uma única conta kármica, e o que vemos no presente é o saldo atual na conta de cada pessoa. Na verdade, o histórico kármico de ninguém é uma conta única. Ele é composto de muitas sementes variadas, plantadas em muitos lugares através das várias ações que fizemos no passado, e cada semente amadurece em seu próprio tempo. Algumas dessas sementes já germinaram e desapareceram; algumas estão germinando agora; algumas germinarão no futuro. Isso significa que a condição presente de uma pessoa reflete apenas uma pequena parte de suas ações passadas. E quanto às outras sementes, não pode vê-las todas. 

Esta reflexão ajuda-o quando desenvolvendo compaixão, pois isto lhe lembrará de que nunca pode realmente saber quando a possibilidade de ajudar alguém pode ter um efeito. As sementes das outras ações más do passado de determinada pessoa podem estar florindo agora, mas podem morrer a qualquer momento. Você pode ser a pessoa certa para estar ali, quando aquela pessoa estiver pronta para receber ajuda. 

O mesmo padrão se aplica a alegria empática. Supomos que seu vizinho seja mais rico do que você. Você pode resistir ao sentir alegria empática para com ele porque você pensa, “Ele já está passando muito bem, enquanto eu ainda estou me ferrando. Porque eu devo desejar que ele fosse ainda mais feliz do que já é?" Se você se encontrar pensando nesta maneira, lembre-se que você não sabe quais são suas sementes kármicas; você também não sabe quais são as sementes kármicas dele. Talvez as sementes kármicas dele estejam próximas de morrerem. Você quer que elas morram mais rápido ainda? A felicidade dele de alguma forma diminui a sua? Que tipo de atitude é essa? É muito útil pensar nestes termos.

O segundo princípio a manter em mente é que, nos ensinamentos do Buda, não há espaço para argumentar sobre se uma pessoa é “merecedora” de felicidade ou “merecedora” de miséria. O Buda simplesmente ensinava que há ações que conduzem ao prazer e ações que conduzem à dor. Kamma não faz acepção de pessoas; é apenas uma questão de ações e seus resultados. Pessoas boas podem ter algumas más ações escondidas em seus passados. Pessoas que parecem horríveis podem ter feito coisas maravilhosas. Você nunca sabe. Portanto não há como questionar se uma pessoa merece ou não passar por dor ou felicidade. Há apenas o princípio de que ações tem resultados e que sua experiência no presente de prazer ou dor é o resultado combinado de suas ações passadas e presentes. Você pode ter algumas ações inábeis em seu passado, mas se aprender a pensar habilidosamente quando essas ações derem frutos no presente, não terá que sofrer.

O terceiro princípio aplica-se a questão de se uma pessoa que está sofrendo “merece” sua compaixão ou não. Você pode ter ouvido falar algumas vezes que todos merecem sua compaixão, pois todos possuem uma natureza búdica. Mas isso é ignorar seu motivo primário por desenvolver as atitudes sublimes em primeiro lugar: você precisa tornar sua compaixão universal para que possa confiar em suas intenções. Se considerar sua compaixão tão preciosa a tal ponto que apenas Budas a mereçam, você não será capaz de confiar em suas intenções quando encontrar pessoas cujas ações são constantemente más.

Ao mesmo tempo, deve se lembrar de que ser humano algum tem seu passado kármico totalmente puro, portanto não pode fazer de um requisito a pureza de uma pessoa a base de sua compaixão. Algumas pessoas resistem à ideia de que, digamos, crianças que nascem em uma zona de guerra, sofrendo de brutalidade e fome, nascem lá por causa de motivos kármicos. Parece ser cruel demais, elas dizem, atribuir estes sofrimentos a kamma de vidas passadas. A única crueldade aqui é, contudo, a insistência de que as pessoas são apenas dignas de sua compaixão apenas se elas forem inocentes de qualquer mal. Lembre-se que você não tem que gostar ou admirar alguém para poder sentir compaixão para com aquela pessoa. Tudo que tem de fazer é desejar que esta possa ser feliz. Quanto mais desenvolver esta atitude para com pessoas que você sabe que fizeram mal, mais poderá confiar em suas intenções em qualquer situação.

O Buda ilustra este ponto em uma analogia bem gráfica: mesmo que bandidos lhe atacassem e cerrassem todos os seus membros com um serrote, deve sentir boa vontade começando por estes e depois a estendendo para o mundo inteiro. Se manter esta analogia em mente, ela ajudará a lhe proteger a agir de formas inábeis, não importa o quanto lhe provoquem.

O quarto princípio a manter em mente tem haver com o kamma que você está criando agora mesmo em reação à felicidade ou infelicidade de outras pessoas. Se você é ressentido da felicidade de alguém, algum dia quando você estiver feliz alguém irá se ressentir da sua felicidade. Você quer isso? Ou se você estiver com seu coração enrijecido com alguém que está sofrendo agora, algum dia você pode passar pelo mesmo tipo de sofrimento. Você gostaria que as pessoas fossem tão duras com você também? Lembre-se sempre que suas reações são uma forma de kamma, portanto esteja ciente de criar o tipo de kamma que dará os resultados que você gostaria de ver.

Quando estiver pensando nestes termos verá que realmente é de seu interesse desenvolver as atitudes sublimes em todas as situações. A pergunta que segue então é, como fazer isto? Este é outro aspecto onde os ensinamentos do Buda sobre a causalidade desempenham um papel importante: seu ensinamento sobre a fabricação, ou o modo como você constrói sua experiência.

Há três tipos de fabricação: corporal, verbal e mental. Fabricação corporal é o modo como respira. Fabricações verbais são pensamentos e comentários mentais sobre variados assuntos – sua fala interna. Em Pali, estes pensamentos e comentários são chamados de vitakka – ou pensamento direcionado, e vicara, avaliação. Fabricações mentais são percepções e sensações: os rótulos mentais que você aplica às coisas, e as sensações de prazer, dor ou neutralidade que você sente em relação a estas. 

Qualquer desejo ou emoção é feito destes três tipos de fabricação. Esta começa com pensamentos e percepções, e então vai até seu corpo através do modo como você respira. É por isso que emoções parecem tão reais, tão insistentes, tão genuinamente “você”. Mas conforme o Buda apontou, nos identificamos com estas coisas porque as fabricamos através da ignorância: você não sabe o que está fazendo, e por isso você sofre em consequência. Mas se puder fabricar suas emoções com discernimento, elas podem formar o caminho para o fim do sofrimento. E a respiração é um bom lugar para começar isso. 

Se, por exemplo, você está sentindo raiva de alguém, pergunte-se, “Como eu estou respirando neste exato momento? Como posso mudar o modo como respiro para que meu corpo possa se sentir mais confortável?” Raiva geralmente gera um senso de desconforto no corpo, e você se sente como se tivesse que se livrar disso. Os meios comuns de fazer isso são dois, e ambos são inábeis: ou você guarda tudo dentro de si, ou tenta direcionar isso para fora do seu sistema ao descontar sua raiva em outros através de ações e palavras.

O Buda nos fornece um terceiro meio mais hábil: respirar através do desconforto e dissolvê-lo. Deixe que a respiração crie sensações de bem estar e satisfação, e permita que estes sentimentos sature o seu corpo inteiro. Este bem estar físico ajuda a manter sua mente relaxada também. Quando estiver operando através de uma sensação de conforto, é mais fácil fabricar percepções hábeis conforme você avalia sua resposta à questão que está lhe afetando.

Aqui a analogia do pedaço de sal é uma percepção importante para manter em mente, pois ela lhe lembra a considerar a situação em termos de sua necessidade da sua própria boa vontade para lhe proteger de kamma negativo.  Parte dessa proteção é procurar por boas coisas na pessoa com que está enraivecido. E para ajudar no modo como considera esta situação. O Buda provê uma analogia ainda mais gráfica para lhe lembrar de que esta abordagem, o modo como você lida, não deve ser apenas mera sentimentalidade: se você ver alguém que tem sido muito má ou grossa com você em palavras e atos, mas tem momentos de bondade e honestidade, é como se estivesse caminhando pelo deserto – quente, trêmulo, e com sede – e você passa por uma pegada de um animal com um pouco de água nela. Você não pode pegar a água com sua mão, porque isso agitaria a terra e a deixaria suja. Ao invés disso, você se agacha em seus joelhos e mãos e cuidadosamente suga a água diretamente do chão.

Note sua posição nesta imagem. Pode parecer humilhante que tenha sua boca na terra dessa maneira, mas lembre-se: você está trêmulo de sede. Você precisa da água. Se apenas focar nos pontos negativos das outras pessoas, vai se sentir ainda mais oprimido com a quentura e a sede. Irá se tornar amargo em relação à raça humana e não verá a necessidade de tratá-la bem. Mas se puder enxergar o bem nas outras pessoas, verá que é mais fácil tratá-las de formas mais hábeis. Os pontos bons destas são como a água para seu coração. Você precisa focar neles para nutrir sua própria bondade agora e no futuro. 

Contudo, se a pessoa com quem está enraivecido não tiver nenhuma qualidade boa, então o Buda recomenda outro modo de considerar esta situação: pense nesta pessoa como um estranho que está doente ao lado da estrada, muito longe de qualquer local onde possa receber ajuda. Deve sentir compaixão para com ele ou ela e fazer o que for possível para levá-los de onde estão até a segurança de seus pensamentos, palavras e ações.

O que você fez nesta situação chama-se hábil fabricação verbal – pensando sobre e avaliando a respiração – transformar a respiração em uma hábil fabricação corporal. Isso, por sua vez, cria uma saudável fabricação mental – a sensação de conforto – que torna mais fácil fabricar percepções que podem desconstruir sua reação inábil e construir um sentimento hábil em seu lugar. 

É assim que usamos nosso conhecimento de kamma e fabricação para formar nossas emoções na direção que queremos – e é por isso que ensinamentos racionais, que usam do cérebro, são importantes nos assuntos do coração. Ao mesmo tempo, porque sensibilizamos a nós mesmos ao papel que a respiração desenvolve ao formar nossas emoções, podemos fazer genuínas mudanças em como nos sentimos fisicamente sobre estes assuntos. Não estamos brincando de fazer de conta. Nossa mudança de coração se torna realmente concretizada, genuinamente sentida.

Isso ajuda a reduzir o sentimento de hipocrisia que por vezes pode nos envolver na prática das atitudes sublimes. Ao invés de negar nossos sentimentos originais de raiva e estresse em dada situação, cobrindo-os com uma massa de algodão doce ou camada de açúcar, podemos realmente nos aproximarmos destas emoções e aprender a reestruturá-las.

Muitas vezes pensamentos que nos aproximarmos de nossas emoções é um meio de entrar em contato com quem realmente somos – que estivemos este tempo todo divorciados de nossa verdadeira natureza, e que por voltar a estar em contato com nossas emoções, conseguiremos reconectar com nosso verdadeiro “eu”. Mas nossas emoções não são nossa verdadeira natureza; elas são apenas fabricações, como qualquer outra coisa fabricada. Porque elas são fabricadas, o verdadeiro problema é como aprender a fabricá-las de forma hábil, para que elas não nos conduzam a problemas e possam ao invés disso nos levar a uma felicidade confiável.

Lembre-se que emoções causam você a agir. Elas são o caminho levando ao kamma positivo ou negativo. Quando conseguir enxergá-las como caminhos, poderá transformá-las em um caminho que possa confiar. Conforme aprender a desconstruir emoções de má vontade, frieza, ressentimento e raiva, e reconstruí-las com as atitudes sublimes em seu lugar, você não atinge apenas um coração ilimitado. Você ganha prática em se tornar mestre do processo de fabricação. E como o Buda disse, esta maestria nos conduz aos primeiros estados sólidos e jubilosos da concentração (jhana). A partir daí é possível fabricar todos os fatores do Nobre Caminho que levam até o objetivo final do ensinamento do Buda, seja vindo do cérebro ou do coração: a felicidade total de Nibbana, incondicionalmente verdadeira. 

O que só serve para mostra que se conseguir fazer com que seu cérebro, isto é, sua racionalidade, e seu coração se respeitem, ambos poderão ir longe juntos. Seu coração precisa da ajuda de seu cérebro para gerar e agir de sobre emoções mais hábeis. Seu cérebro precisa de seu coração para lhe lembrar de que o que é realmente importante na vida é pôr um fim ao sofrimento. Quando eles aprenderem a andar juntos, eles podem fazer de sua mente humana uma ilimitada mente brahmânica. E mais: juntos eles podem dominar as causas para a felicidade ao ponto onde esta é transcendida, tocando a dimensão do que não tem causas* que o cérebro jamais poderia compreender, e uma felicidade tão suprema que o coração não terá mais necessidade para o desejo.

(Nota do tradutor: Nibbana é chamado de aquilo que não tem causa, por isso, não tem efeito, é transcendental)

O texto original em inglês pode ser encontrado no endereço: http://www.accesstoinsight.org/lib/authors/thanissaro/headandheart.html